A (crescente) solidão de quem sofre (hoje)

“A dor diz: passa! a felicidade diz: eu quero a eternidade!” (Nietzsche)

Antes de tudo, o “hoje” acrescentado ao título não vem com a intenção de ser usado para comparar o passado com o presente. Feito quem usa a expressão “no meu tempo não era assim” ou “no meu tempo era melhor”. Não! Porque os tempos são outros sim, mas são tempos diferentes. Melhor ou pior são classificações categóricas demais e, portanto, rasas para encerrar uma percepção sobre esse nosso presente forjado a custas de muitas e imensas mudanças no mundo como conhecíamos.

No “conhecíamos” incluo somente minha geração pra trás.

Minha irmã de 20 e poucos anos já não percebe o mundo como eu, minha sobrinha de pouco mais de 10 anos tampouco e meus sobrinhos menores, menos ainda.

Gerações sobrepõe gerações. Sempre foi assim. E sempre será.

Só que, na velocidade com que as coisas acontecem atualmente, essa sobreposição acontece tão rápido quanto.

O mundo líquido de Bauman. Nenhum conceito, crença ou valor já não se perpetua mais ao longo do tempo. Nosso caminho é feito sobre uma fina camada de gelo, que se pararmos de correr, ela se rompe sob nossos pés.

Como disse, a intenção não é comparar. É chamar atenção para um aspecto que caracteriza e resume nosso tempo:

A felicidade sendo tratada como um objetivo que TEM QUE ser alcançado (e exibido), sob pena do indivíduo se ver como um incompetente caso não logre sucesso na sua empreitada.

Porque, afinal de contas, as oportunidades estão aí – igual para todos – , podemos quase tudo, a felicidade é um direito e está aí disponível para todos e se você ainda não a acessou é porque tem alguma coisa errada com você.

Uma das mudanças mais significativas do nosso tempo e a que mais me afeta inclusive, porque não raras vezes me vejo (e admito que quero) querendo controlar minha vida como um adestrador doma um cavalo selvagem, é a nossa vida/trajetória/história sendo vista e tratada como uma empresa. Como um negócio que TEM QUE dar certo, que não pode falir em hipótese nenhuma, que não admite erros, que prevê cenários e soluções para os possíveis problemas e que cujo objetivo final é o lucro e a expansão.

Tudo bem! Desejar, ter ideais, projetar o futuro… tudo isso é o que nos impulsiona e nos faz dar movimento a nossas vidas.

Mas, até que ponto esse “movimentar-se” precisa ser permeado apenas pelo sucesso? (E essa pergunta sempre me faço quando hesito em dar algum passo por medo do sofrimento ou fracasso). Não que devamos procurar o sofrimento (ele virá caso “dê na telha”), só que o evitamos a todo custo como se fôssemos incapazes de suportar frustrações.

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Depois de tomar conhecimento de um triste acontecimento envolvendo alguém por quem tenho imenso carinho e de perceber a nuvem de solidão que estacionou (e que, provavelmente vai permanecer até o último dia da sua vida, porque sei bem a natureza da dor desse alguém) sobre o rosto desta pessoa; parei para refletir na solidão tão grande que alguém que sofre hoje, sente.

Somos “convidados” a todo momento a ter auto controle, a desenvolver inteligência emocional, a “gerir” (aqui mais um termo do meio corporativo) nossas emoções.

O consumo de antidepressivos e ansiolíticos cresceu e continua crescendo em ritmo galopante de cavalo que desembesta no meio da estrada.

Perder o controle, esbravejar, discutir, sofrer… chorar! Chorar! Já não são mais comportamentos aceitáveis.

Quem se expõe hoje, que se dá ao luxo de se deixar sucumbir ante o poder e o tamanho da sua dor, fraqueza ou impotência é sumamente criticado e rechaçado pelos “perfeitões” que nos rodeiam.

E assim, os consultórios de psicologia, psiquiatria, salas de coaching; ficam cada dia mais lotados. Assim, laboratórios e farmácias lucram cada vez mais às custas da nossa miséria.

E assim, nessa busca pela felicidade plena, vamos a cada dia que passa empobrecendo mais e fragmentando as nossas vidas.

Porque esquecendo que nem sempre é nos momentos de felicidade que conhecemos nossos verdadeiros amigos, que nem sempre é nos momentos de conquistas que nos damos conta do tamanho da nossa força interior, que nem sempre é nos momentos de facilidade que descobrimos até onde vai nossa criatividade para resolver problemas…

Porque esquecendo de que não poderemos fazer e nem ter tudo, acabamos por não poder fazer e nem ter nada.

 

 

 

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2 pensamentos sobre “A (crescente) solidão de quem sofre (hoje)

  1. Pingback: As feridas de amor (dentre outras) que carregamos – Rabiscos da Pat

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